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O que muda? Tudo, e nada

O que muda? Tudo, e nada
18/11/2016

O Brasil não está nas prioridades dos EUA, porém isso pode ser uma vantagem

Ao abrir o Seminário Futuro da Relação Bilateral Brasil – Estados Unidos, promovido pela Amcham nesta quinta-feira (17), a Embaixadora dos EUA no Brasil, Liliana Ayalde, parabenizou a organização das Olimpíadas Rio 2016, e da Copa do Mundo que a precedeu, classificando os eventos como “sucessos retumbantes”. Infelizmente, o mesmo sucesso ainda não se aplica às opiniões dos especialistas sobre as iniciativas do Brasil no contexto mundial: “falar e fazer são bastante diferentes”, enfatizou a embaixadora, citando demandas conhecidas, como aumentar o comércio, reduzir custos e melhorar a competitividade.

Em consonância com a opinião de Liliana Ayalde, o ex-correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, Peter Hakim, hoje presidente emérito do Leadership for Americas, afirmou que “o Brasil sempre se manteve muito na esfera das promessas para o futuro, mas nunca chegou a concretizar ações. É como se viesse andando sobre uma esteira, sempre com grandes esforços, mas sem sair do lugar”. Hakim disse acreditar, inclusive, que essa foi a principal diferença entre a inserção que a China conseguiu no mercado americano, e os passos dados pelo Brasil na mesma direção.

Já para o setor de agricultura e exportação de commodities brasileiras, Paulo Sottero, diretor do Brazil Institute of the Woodrow Wilson International Center for Scholar disse acreditar que as perspectivas vão depender de como os EUA conseguirão se posicionar diante de todo o mercado global. Jerry O’Callaghan, diretor de relações com investidores da JBS, que tem forte presença nos Estados Unidos, lembrou ainda: “a grande realidade é que, em commodities agrícolas, o Brasil e os EUA não são exatamente parceiros, mas sim concorrentes. Um terço da carne consumida no mundo todo é produzido ou pelo Brasil, ou pelos Estados Unidos, e o mesmo acontece com outras commodities, como a soja e o milho”.

Mais ação e menos reação: com essa linha de pensamento, Paulo Sottero concordou com a embaixadora. “É necessário que o Brasil atue de maneira mais proativa, tanto o governo quanto as empresas”, declarou o acadêmico, que participou do evento por acesso remoto.

“It’s the end of the world as we know it…” Arrancando risos da plateia com o trecho da música da banda R.E.M., sucesso dos anos 1990, o moderador Marcos Troyjo, diretor do BricLab da Columbia University, questionou aos correspondentes internacionais o que de fato mudaria no mundo a partir dessas eleições. Ao que Raymond Collitt, da Bloomberg News, respondeu: “tudo, e nada”. Em seguida, explicou que o fato de o Brasil não ter estado no foco das propostas de campanha pode ser considerado como uma vantagem, pois permite continuidade às negociações que já vinham em andamento, como se nada tivesse acontecido. No entanto, na prática, o mundo financeiro – e nesse cenário, o Brasil tem destaque por sua economia frágil – “virou de cabeça para baixo”, afirmou o jornalista, referindo-se a uma lista de reações do mercado, como a evasão de capital e alterações no câmbio, no mercado de futuros e nas taxas de juros. “E isso poderá – sim – afetar a recuperação do País, em um momento tão delicado”, alertou Colitt. E, novamente, ao moderador, respondeu: “depende do lado de que você estiver enxergando”.

Já para o correspondente-chefe do Financial Times no Brasil, Joseph Leahy, o mundo como o conhecemos até então acabou sim; e nem todos “feel fine”, como continuaria a música do R.E.M.. Mas, embora o ambiente ainda seja de total incerteza, o jornalista afirmou também que enxerga oportunidades e desafios para o Brasil na nova gestão americana. Ele ressaltou que, apesar de o foco inicial da jornada nacionalista de Trump ser dirigido ao México, a economia e as perspectivas do Brasil podem sofrer efeitos indiretos das mudanças na relação entre os dois integrantes do NAFTA. Ainda assim, Leahy afirmou que é necessário acompanhar o que vai acontecer com o congresso americano, uma vez que o novo presidente tem consciência de que não pode desapontá-lo demais, para evitar um governo sob pressão.

Também por acesso remoto, a correspondente do Estadão em Washington, Claudia Trevisan, lançou uma questão: “resta saber qual dos ‘Trumps’ irá governar os Estados Unidos: aquele do Teleprompter, com discurso disciplinado, ou aquele do Twitter, mais agressivo e explosivo”. Segundo Cláudia Trevisan, o Brasil de fato não está na agenda de prioridades de Donald Trump, porém os diálogos devem continuar, mesmo que sem espaço para grandes ambições”.

Fonte: Cleci Leão / Guia Marítimo