DUIMP, Reforma Tributária e Portal Único estão transformando a qualidade dos dados em parte da infraestrutura das importações — e informações tratadas como detalhe podem ganhar impacto direto sobre compliance, prazo e fluidez operacional.
Durante muito tempo, quando alguém falava em gargalo no Comércio Exterior, era quase automático pensar em porto congestionado, falta de espaço, atraso de navio, fiscalização, documentação ou alguma pendência no desembaraço.
Todos esses fatores continuam relevantes.
Mas uma transformação menos visível está acontecendo no Comex brasileiro: o dado está deixando de ser apenas informação de apoio e passando a fazer parte da própria operação.
NCM, atributos, descrição de mercadoria, fundamentos legais, informações fiscais, local da operação de consumo, tratamentos administrativos e dados estruturados que alimentam sistemas já não podem ser encarados simplesmente como campos a preencher.
Eles estão se tornando parte da infraestrutura que permite que uma importação avance. E 2026 tornou essa mudança particularmente evidente.
De documentos para dados
A modernização do processo de importação brasileiro vai muito além da substituição da Declaração de Importação pela DUIMP.
O Portal Único trabalha com uma lógica em que diferentes informações podem ser estruturadas, reutilizadas, integradas e submetidas a validações sistêmicas ao longo da operação. Isso muda profundamente a relação entre o cadastro do produto e o processo aduaneiro.
Um dado criado muito antes da chegada da carga pode influenciar aquilo que acontecerá quando ela estiver em trânsito ou pronta para o desembaraço.
O próprio cronograma oficial mostra que essa transição já está avançando. O Siscomex vem desligando progressivamente operações realizadas por DI e ampliando a obrigatoriedade da DUIMP. Em outubro, por exemplo, o desligamento da DI para determinadas operações marítimas a granel foi programado para 11/10. Outros movimentos seguem até dezembro (Serviços e Informações do Brasil).
Não estamos mais falando de um projeto distante de digitalização. A migração está acontecendo enquanto as empresas continuam importando normalmente.
E então chegou a Reforma Tributária
A Reforma Tributária adicionou outra camada a essa transformação.
Desde 27 de setembro, o ambiente de produção da DUIMP já contempla alterações relacionadas à CBS e ao IBS. Entre elas estão novas informações associadas ao local da operação de consumo e mecanismos para tratamento tributário dentro da declaração.
O recolhimento de CBS e IBS nas operações abrangidas não começa antes de 1º de janeiro de 2027, mas os sistemas e processos estão sendo preparados agora. Esse intervalo é importante.
Porque a virada para 2027 não deveria ser encarada simplesmente como a data em que um novo imposto começa a ser calculado. Ela envolve entender de onde vêm os dados utilizados nesse cálculo, quem é responsável por eles, como os sistemas internos conversam e onde existem inconsistências que ainda precisam ser corrigidas.
Ou seja: a Reforma Tributária também é um projeto de dados.
Um campo vazio já pode interromper um fluxo
Há um exemplo recente que deixa essa transformação bastante concreta.
A partir de 1º de outubro, o Siscomex Remessa passou a aplicar novas validações para a Declaração de Importação de Remessa. Entre as exigências estão o preenchimento válido de informações como NCM e cClassTrib.
Quando essas informações não atendem às regras estabelecidas, a transmissão é rejeitada e a DIR não é registrada.
Esse caso diz muito sobre a direção que o Comex está tomando. Durante anos, muitas empresas conviveram com cadastros construídos por diferentes departamentos, sistemas que não conversavam integralmente, descrições criadas para finalidades distintas e informações corrigidas durante o próprio processo operacional.
Quanto mais automatizado e integrado se torna o ambiente, menor tende a ser o espaço para essa lógica. O sistema não interpreta uma informação incompleta como uma pessoa interpretaria. Ele valida. E, dependendo da regra, aceita ou rejeita.
O problema começa muito antes da carga
Isso também altera a forma de enxergar uma falha no processo. Imagine que uma importação encontre uma inconsistência no momento do registro.
À primeira vista, parece um problema de Comércio Exterior. Mas sua origem pode estar meses atrás, quando determinado SKU foi criado.
Pode ter começado no cadastro de materiais. Na engenharia. No fiscal. Em uma informação recebida do fornecedor. Na descrição comercial utilizada por compras. Ou em uma integração entre sistemas que nunca havia sido desenhada pensando nas exigências atuais do Comex.
É por isso que o novo ambiente exige uma visão mais transversal. Comex, Fiscal, Tributário, Compras, Tecnologia e Supply Chain passam a compartilhar cada vez mais a mesma infraestrutura de informação.
A qualidade dessa informação deixa de interessar somente a quem registra a declaração. Ela passa a interessar à empresa.
O cadastro deixa de ser arquivo e vira ativo
Talvez esta seja uma das mudanças culturais mais importantes. Um bom cadastro de produtos não deveria existir apenas para “não dar problema na importação”.
Quando bem estruturado, ele pode trazer mais consistência para classificação, análise de tratamento administrativo, planejamento tributário, automação, integração de sistemas e gestão de riscos.
Pode também reduzir dependência de correções manuais e permitir que especialistas dediquem mais tempo às exceções e às decisões que realmente exigem interpretação.
É nesse ponto que a tecnologia ganha propósito. Automatizar um processo construído sobre dados inconsistentes não necessariamente torna a operação mais inteligente. Pode apenas permitir que a inconsistência circule mais rápido.
A inteligência vem antes: entender o dado, sua origem, sua responsabilidade e seu impacto.
2027 talvez comece no cadastro mestre
Para muitas empresas, o planejamento de 2027 está sendo discutido agora em budgets, forecasts, contratos, fornecedores e planejamento de estoque.
No Comércio Exterior, existe outro planejamento que merece entrar nessa agenda. Como estão os dados que sustentarão essas operações?
O cronograma da Reforma Tributária já prevê novos marcos para documentos e declarações ao longo do último trimestre de 2026, enquanto o início de 2027 concentra mudanças relevantes envolvendo CBS e IBS.
Ao mesmo tempo, o cronograma de desligamento da DI continua avançando, ampliando gradualmente o universo de operações realizadas pelo novo processo.
Esperar a primeira inconsistência aparecer em produção para então discutir cadastro, integração ou responsabilidade provavelmente será cada vez menos eficiente. A oportunidade está justamente no movimento contrário: usar a transição para revisar processos enquanto ainda há tempo para ajustá-los.
Do Comex reativo ao Comex orientado por dados
Existe uma mudança maior por trás de tudo isso.
Durante décadas, grande parte da excelência em Comércio Exterior esteve associada à capacidade de reagir rapidamente: resolver uma pendência, encontrar um documento, falar com um órgão, corrigir uma informação ou recuperar uma operação crítica. Essa expertise continua fundamental.
Mas o novo Comex acrescenta outra competência: prevenir problemas por meio da qualidade da informação. É uma evolução de um modelo predominantemente reativo para uma operação mais estruturada, integrada e orientada por dados.
E isso também redefine o papel dos especialistas. O conhecimento deixa de aparecer somente quando existe uma exceção. Ele passa a participar da construção do processo, da parametrização, do cadastro e da definição das informações que alimentarão a operação.
Tecnologia não elimina expertise. Ao contrário: quanto mais automatizado é o fluxo, mais importante se torna garantir inteligência naquilo que acontece antes da automação.
O próximo gargalo pode ser invisível
Navios são visíveis. Contêineres são visíveis. Filas em portos são visíveis.
Uma informação inconsistente em uma base com milhares de SKUs, não. Até o momento em que ela interfere na operação.
Por isso, talvez um dos movimentos mais importantes para empresas que importam em 2027 aconteça longe do porto. Pode acontecer em uma reunião entre Comex, Fiscal, Compras e Tecnologia. Pode começar na revisão de um cadastro. Na definição de uma responsabilidade. Na integração entre dois sistemas. Ou na decisão de olhar para o processo aduaneiro não apenas quando existe uma carga para desembaraçar.
Na MAC, acompanhar as transformações do Comércio Exterior significa entender justamente essas conexões: legislação, tecnologia, dados e operação precisam evoluir juntas.
Por meio do MAC Customs Advisory, esse olhar consultivo permite apoiar empresas não apenas diante de uma mudança regulatória, mas na compreensão dos impactos que ela pode gerar sobre seus processos e suas operações.
Porque o Comex está ficando mais digital. E, nesse novo ambiente, qualidade da informação também é qualidade operacional.
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